
De princípio temos de compreender que, seja ela o que for, a religião está no centro de irradiação de todas as forças que geram e mantêm a vida de uma cultura. O historicismo pode muitas vezes mostrar-se perturbador para quem visa o que sempre é, tal como é; mas um abuso da história certamente não depõe contra o seu uso; e de somente usá-la, parece resultar a convicção de que, culto e cultura, quanto mais recuamos no tempo ou mais nos afastamos das regiões marginais da corrente cultural dominante, tanto mais identificados nos aparecem. A ilusão positivista, mais rudemente expressa pela «lei» de substituição da teologia pela metafísica e da metafísica pela ciência, passou à história de um passado definitivamente passado, pois no cristianismo, encontra-se toda a razão suficiente para nos apercebermos de que a fé na ciência, mais resolutamente professada desde o século XVII, radica na revelação de que a Natureza fora por Deus submetida ao inteiro arbítrio do Homem. Portanto, mesmo agora, quando mais parece sobressair um ateísmo, que só o é, por negação de determinadas formas de conceber a divindade, ou quando os merecidos sucessos da tecnologia votam a mais prolongado olvido os problemas existenciais que surgem em todas as situações de liminaridade, ainda não é lícito recusar-nos a admitir que a religião permanece no centro de irradiação das forças que mantêm a cultura ecumênica e universalista, que é a do nosso tempo.
Assim consideradas, as religiões constituem-se, portanto, como que em forma a priori de todas as possíveis ou efetivas configurações culturais. Mas temos de atenuar um pouco o sabor kantiano desta terminologia, de converter este significante em mera sugestão de outro significado. Temos, sobretudo, de subtraí-lo à precária vigência do Mito do Homem. O a priori tenta sugerir, não o não-experimental que condicionaria a nossa experiência, mas a primeira experiência ou a primeira ordem de experiência da «Fulguração Ofuscante», em que «Fulguração» corresponde ao mostrar-se uma daquelas contenções da Excessividade Caótica, um desses subprodutos do Caos Excessivo, e o «Ofuscante», ao ocultar-se, por virtude da mesma Fulguração, o que só a outras Fulgurações ficou reservado desocultar, ou, em mais perfeita consonância com o Heidegger tão bem interpretado, quanto parcialmente refutado por Vicente Ferreira da Silva, a primeira forma em que se instaura um «Regime de Fascinação», em que o «Fascinator» é o Ser, o Real, o Absoluto ou não importa como se designe a Divindade que «quer e não quer ser chamada pelo nome de Zeus».
No uso desta linguagem ou, antes, desta codificação, à medida em que se propõe, para além da relação sujeito-objeto, o conjugarem-se, na mesma projeção entitativa, o homem que está para o mundo e o mundo que está para o homem, desvanece-se a ilusão do «progresso», que ficou para trás, como preferido arranjo das escórias residuais do mesmo incêndio, provocado por uma, e só uma, de todas as possíveis Fulgurações que põem a nossa irredutível subjetividade como um Absoluto em relação direta com o Absoluto. Porque a nossa subjetividade irredutível, o ponto central e indiferente, a condição incondicionada de todas as objectivações, dentro e fora das nossas diversas individuações ou personificações, é a que tem por objeto o próprio Real. Para ela, e só para ela, Objectividade e Realidade são uma e a mesma coisa. Diante de qualquer das esferas nela concentradas, por maior que seja o seu raio (contando que não exceda o da nossa «personalidade», por muito que ela se dilate) há sempre um mundo «objectivo» que oculta ou em que se oculta a transobjetividade do Real e do Absoluto, isto é, do Secretum ou do Separado, que não deixará de sê-lo, senão quando, descendo nós em nós mesmos, até ao ínfimo de todos os Infernos, virmos que ele se casou com o supremo de todos os Céus.
Eudoro de Sousa